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Por que cada vez mais jovens dizem não a cargos de liderança

Para jovens, crescer financeiramente e assumir um cargo de gestão deixaram de ser sinônimos Christin Klose/dpa-tmn/picture alliance Crescer na carreira, ganha...

Por que cada vez mais jovens dizem não a cargos de liderança
Por que cada vez mais jovens dizem não a cargos de liderança (Foto: Reprodução)

Para jovens, crescer financeiramente e assumir um cargo de gestão deixaram de ser sinônimos Christin Klose/dpa-tmn/picture alliance Crescer na carreira, ganhar mais e conquistar bons benefícios é o sonho de praticamente todo trabalhador. Mas, para os mais jovens, esse caminho nem sempre passa por um cargo de liderança. É o que apontam pesquisas globais, como o levantamento da consultoria Deloitte, realizado em 2025. Apenas 6% dos entrevistados da Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) e dos millennials, ou geração Y (nascidos entre 1978 e 1994), disseram que seu principal objetivo profissional era chegar a uma posição de chefia. Por outro lado, o mesmo estudo revela uma preocupação crescente com as finanças. Entre os participantes, 48% da Geração Z e 46% dos millennials afirmaram não se sentir financeiramente seguros. Em 2024, esses índices eram de 30% e 32%, respectivamente, o que representa uma piora expressiva em apenas um ano. Nesse cenário, ganhar mais dinheiro e assumir um cargo de gestão deixaram de ser objetivos necessariamente interligados. Trata-se de uma tendência global que também já se reflete no Brasil. Por que os jovens pedem mais demissão? Veja como pensa cada geração Liderança, sim — mas sob certas condições A rejeição à liderança está longe de ser uma regra geral. Para Lina Nakata, professora e pesquisadora da FIA Business School e autora do estudo Lugares Incríveis para Trabalhar, é um mito dizer que as gerações mais novas não querem liderar. No recorte do primeiro semestre deste ano da pesquisa que coordena, os jovens apresentam uma propensão 32% menor de desejar cargos de liderança em comparação à média dos profissionais. Entre os entrevistados de 18 a 22 anos, liderar é prioridade para 15%. Já entre aqueles de 33 a 39 anos — faixa etária que registra o maior interesse por cargos de gestão — o percentual sobe para 23%. "À medida que avançamos na carreira dentro das empresas, essa expectativa de liderança aumenta", afirma. Segundo ela, no início da trajetória profissional, ocupar um cargo de gestão nem sempre está entre as principais ambições dos trabalhadores. Para Nakata, os jovens não deixaram de querer liderar; eles apenas desejam fazê-lo sob determinadas condições. "Eles vão querer a liderança à medida que se identificam com a organização. Quando percebem que estão de acordo com aquilo que a empresa propõe e que o discurso institucional está alinhado às práticas da companhia", analisa. A pesquisadora também lembra que rotular os mais jovens como "desinteressados" pela liderança está longe de ser uma novidade. A mesma crítica, afirma, foi direcionada aos millennials quando eles ingressaram no mercado de trabalho. "Quando cada grupo jovem chega ao mercado de trabalho, ele vai se adaptando. Estar naquele ambiente muda percepções e avaliações, e as pessoas passam a enxergar outras possibilidades. No início da carreira, pode haver menos interesse pela liderança, mas isso se altera com o tempo. Quando a geração Y chegou ao mercado, falava-se exatamente a mesma coisa", diz. Embora situação financeira seja uma preocupação dos jovens, pesquisadora aponta que há uma preferência maior por benefícios e qualidade de vida Viorel Kurnosov/Zoonar/picture alliance Mudança de prioridades, não falta de ambição Atualmente, segundo a pesquisa, 15% dos jovens veem a liderança como um fator de realização profissional, o que, para a professora, relativiza a ideia de que existe uma rejeição generalizada aos cargos de chefia. "Não quer dizer que nenhum jovem queira ser líder. Significa apenas que existe uma proporção menor de jovens que busca essa liderança." O primeiro ponto a entender, segundo Nakata, é que a queda no interesse por cargos de gestão não reflete falta de ambição, mas uma mudança nos critérios de sucesso. "Não diria que é falta de ambição. São expectativas e crenças diferentes sobre o que é sucesso na vida. Décadas atrás, havia um modelo mais padronizado de sucesso profissional, baseado em alcançar cargos mais altos e salários mais elevados. Hoje, vemos que a percepção de realização e do que é considerado satisfatório para a vida e para a trajetória profissional mudou", explica. A professora afirma que os jovens tendem a questionar as premissas que o próprio mercado de trabalho estabelece como sinônimo de sucesso. Para ela, isso é positivo porque evita a naturalização de ideias como a de que "ser workaholic é legal" ou de que "viver estressado faz parte da rotina". Além disso, temas como saúde mental passaram a ser discutidos mais abertamente. O social media Mateus Araújo, de 28 anos, faz parte desse grupo. Ele recusou uma proposta para coordenar sua equipe por considerar que o novo cargo exigia um perfil diferente do seu. "Eu não imaginava que fosse ser cotado como o próximo nome da sucessão. Apesar de desempenhar um bom trabalho, acredito que os perfis sejam diferentes." Segundo ele, o principal motivo para recusar a proposta foi ter discernimento de que as responsabilidades do cargo oferecido eram bastante distintas das que exercia até então. Além disso, a mudança significaria abrir mão de uma rotina que já considerava consolidada e sob controle. Hoje, suas prioridades profissionais incluem estabilidade, qualidade de vida e flexibilidade para realizar trabalhos como freelancer "em uma rotina tranquila". Ainda assim, ele não descarta assumir uma posição de liderança no futuro. Jovens hoje em dia tendem a avaliar mais os prós e contras de assumir um cargo mais alto do que gerações anteriores Channel Partners/Zoonar/picture alliance O impacto da longevidade Segundo Nakata, essa mudança também está relacionada ao aumento da expectativa de vida. A pesquisa da Deloitte mostrou que cerca de 40% da Geração Z e dos millennials se preocupam com a possibilidade de não conseguir se aposentar com conforto financeiro. Com as pessoas vivendo mais — e, consequentemente, trabalhando por mais tempo — a qualidade de vida passou a influenciar as decisões de carreira desde cedo. "Hoje temos uma expectativa de vida muito mais alta. Isso faz com que saibamos que teremos de trabalhar por mais tempo, independentemente do motivo. E também percebemos que os jovens querem uma carreira mais equilibrada, não necessariamente centrada na busca por um cargo de liderança. É uma tendência global", afirma. Mudança nas necessidades de competências no mercado de trabalho também impulsiona crescimento de carreira mais horizontalizado Benis Arapovic/Zoonar/picture alliance O cálculo que os jovens fazem Para a professora, os jovens avaliam mais cuidadosamente os prós e contras de assumir posições de gestão do que as gerações anteriores. "Eles estão analisando o que é mais vantajoso, o que traz maior satisfação e o que compensa mais. Pensam nas suas demandas e obrigações e, ao mesmo tempo, no que recebem em troca." Um dos fatores centrais desse cálculo é a remuneração. "Quando comparamos a remuneração da base com a da liderança, muitas vezes compensa menos ser líder. São mais responsabilidades, mais riscos, mais recursos e orçamentos para gerenciar. Isso faz com que o jovem prefira buscar equilíbrio, qualidade de vida e flexibilidade, elementos que costumam ser mais difíceis de conciliar com a liderança", afirma. Esse foi um dos motivos que pesaram na decisão de Araújo. "Ao aceitar a proposta, eu teria de lidar com demandas mais imprevisíveis, uma rotina presencial mais intensa e mais interações com colaboradores e parceiros. E, provavelmente, por uma remuneração que eu não considerava suficiente. Minha paz e uma rotina mais previsível têm muito mais peso para mim", diz. A professora acrescenta que as prioridades variam conforme o momento da carreira. Dependendo da fase, fatores como propósito e busca por novos desafios podem ser mais relevantes — e nem sempre estão associados a um cargo de liderança. Os dados da Deloitte reforçam essa percepção: para 89% da Geração Z e 92% dos millennials, ter propósito é importante para a satisfação e o bem-estar no trabalho. A modernização do mercado também contribui para essa mudança. Com novas carreiras e especializações surgindo constantemente, cresce o interesse por trajetórias horizontais, nas quais é possível evoluir profissionalmente sem necessariamente subir na hierarquia corporativa. Ainda assim, Nakata ressalta que muitas pessoas continuam desejando liderar. "A liderança acaba sendo uma escolha para quem busca essa ascensão, que normalmente está associada a salários maiores, benefícios, privilégios e acesso a decisões mais complexas." Por outro lado, ela avalia que a mudança de expectativas obriga as empresas a repensarem seus planos de carreira e estratégias de retenção. Em conversas com profissionais de recursos humanos, diz ouvir com frequência que integrantes da Geração Z valorizam cada vez mais benefícios e qualidade de vida, e não apenas aumentos salariais. Para que os jovens se interessem por cargos de gestão, conclui a pesquisadora, as empresas precisam demonstrar que a liderança realmente vale a pena.

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